2005-08-31

O subterrâneo de veludo
















I'm sticking with you
'Cos I'm made out of glue
Anything that you might do
I'm gonna do too

'I'm Sticking with you'
The Velvet Underground

Andava eu pelo Camdem Market, uns vinte anos atrás, e andavam também por lá uns tipos, proto-punks de banquinha, a vender cassetes piratas de concertos, naquele tempo havia um em cada esquina. Agora com as novas tecnologias acabou-se-lhes o negócio, I presume.

Eu parava em todos e olhava deliciado as cassetes. Babava-me, onde mais iria encontrar um concerto dos New Order acabadinho de acontecer ontem. Portuga pobre, pedi para ouvir uma cassete dos Velvet Underground ao vivo algures, não fazia tenção de comprar. O gajo, com o cabelo verde espetado e cara de bebé, e aquela pele sempre muito branquinha e oxigenada, mudou a cassete que estava a ouvir no seu leitor portátil, qualquer coisa de gótico, tipo Sisters of Mercy antes do vocalista ter deixado de fumar.

Ouvi um bom bocado e depois disse ao gajo que podia tirar, o gajo disse que não, eu não estava a perceber nada, aqueles gajos são um bocado parvos e teimosos e eu dizia que tirasse, não estava interessado, se calhar queria que eu comprasse a cassete, ok já tinha ouvido e ele só dizia não, era como falar para uma parede até que no meio do seu desprezo me passou a mensagem que os Velvet eram muito bons e queria continuar a ouvir.

O que é certo é que os Velvet continuam a consumir grande parte do meu tempo de antena. Grupo revolucionário nos anos 60, hoje poucos são os músicos que arriscam romper as barreiras musicais tal como Reed, Cale e quejandos o fizeram no seu tempo. A rude beleza da sua música continua a atrair-me, a comover-me. Abafa os meus dias negros com a sua distorção e irradia a sua calma melódica quando flutuo entre as nuvens, nos meus dias mais calmos.

A quem não conheça aconselho a audição de I'm Sticking with You, do albúm VU, um perfeito orgasmotron tal o prazer que me proporciona sempre que a oiço.

Dostoiewski (III)

Raskolnikóv, o assassino de 'Crime e Castigo', acredita ser um dos escolhidos (ver post anterior).

Mata porque acredita ser esse o meio para levar avante as suas ideias, o seu ideal, o seu plano de vida. Escolhe a sua vítima, uma velha agiota que, qual piolho sobrevive a sugar o sangue dos outros, dos deserdados da vida como o é Raskolnikóv, de entre os que moralmente não merecem viver.

Dostoiewski fá-lo intimamente bom, alguém que acredita em si e se preocupa com os outros, mas retira-lhe o futuro, nega-lhe a categoria de escolhido. Ora, não o sendo, o assassino terá obrigatoriamente de assumir a sua culpa e ser julgado pela sociedade. Mas a pena imposta por esta só resultará se conduzir o criminoso ao arrependimento, o que não parece acontecer com Raskolnikóv.

Rapidamente o assassino vê-se confrontado com os seus dilemas morais e logo de seguida com a sua consciência. O grande problema é que esta não o acusa, e quando a consciência não acusa não surge o arrependimento. Como ser superior, escolhido, o arrependimento só poderá ser assumido perante alguém que lhe seja superior. Ele não vê isso nos que o rodeiam.

Mas, também para o assassino de Dostoiewski a redenção existe, vem pelo sofrimento, essência da condição humana. É aqui que entra Sônia, jovem prostituta, corrompida para salvar a família da inacção causada por um pai viciado no álcool. Sónia é o ser superior, que se eleva pelo sofrimento. É ela que leva Raskolnikóv a confessar, é ela que o assassino acaba por respeitar, por amar, e é perante ela que se redime do seu crime.

Simplificando o assunto, para o mestre russo poderiam existir duas opções para limpar as consciências: o arrependimento ou o sofrimento. O arrependimento, sabemos nós, nem sempre funciona, neste mundo entupido de homens superiores. Por outro lado, o sofrimento custa. Enfim, aceitam-se outras propostas.

Dostoiewski (II)

O personagem principal de 'Crime e Castigo', o desafortunado e delirante Raskolnikóv, é um assassino. Mata em nome do seu ideal, o de dar a si próprio os meios de mudar o mundo para melhor. Acredita ser um dos escolhidos.

Por aqui ecoa uma ideia, soberanamente explanada pela pena do Dostoiewski. É uma ideia fria, crua como o gume de uma faca, cruel. Segundo ela, existem dois tipos de homem, os normais, inseridos na sociedade e que devem ser julgados pelas leis desta, e os escolhidos, os eleitos, sujeitos supra-sociais, os quais obedecem apenas ao dever para com os outros e não às suas leis. Na 'Genealogia da Moral', Nietszche movimenta-se por caminhos semelhantes, o super-homem cria as suas próprias leis morais.

Esta ideia apela à relativização do acto, mesmo o mais abominável, mesmo o mais monstruoso. Quando consumado por um dos escolhidos, ser superior, providencial, fecundado pelo conhecimento do bem geral, esse acto só por ele pode ser julgado. Dostoiewski escreve muito próximo de Napoleão, provavelmente tinha-o em mente. É claro que Hitler no seu delírio ter-se-á baseado num princípio semelhante quando decretou a solução final para o caso judeu.

Não estou a apelidar Dostoiewski de nazi, seria ridículo, o autor e a obra são distintos, a obra pertence-nos quando a lemos e esta é apenas uma migalha que retirei do amargo bolo de mel que é 'Crime e Castigo'.

A História está cheia de escolhidos. Do Khan a Salazar, de Estaline a Mao, milhões foram sacrificados em nome de um suposto bem social comum. Nas democracias actuais os escolhidos pululam num pântano de populismo, incólumes aos mecanismos de defesa das mesmas. Paradigmático é o caso de Bush o qual se arvorou saber do que carecem os herdeiros da antiga Babilónia.

Dostoiewski escreve do seu tempo mas a sua escrita é intemporal na sua humanidade, tal como deve ser.

2005-08-30

Dostoiewski (I)

Acabei de ler 'Crime e Castigo' de Dostoiewski. Por vezes fixo-me num autor e por ora ando agarrado ao grande mestre russo.

Desde sempre dedicado às letras, o meu grande pecado é o de não conhecer todas as línguas do mundo. Passo a explicar:

Tradutor em potência, cedo reneguei aqueles que fazem dessa arte a sua profissão, pois com o evoluir dos meus conhecimentos em determinadas línguas, sobranceiramente decidi ler obras literárias apenas no original. Rapidamente essa decisão condicionou a minha leitura a textos em português, inglês e pouco mais.

Enfim, fui castigado, e o meu castigo foi o de só agora ter tomado contacto com a obra do grande mestre russo. Ainda me esforcei um pouco, tive uma passagem falhada por aulas de russo, desisti, cirílico não é comigo e muito menos à mistura com declinações.

É por isso que quero deixar aqui os meus agradecimentos a Nina Guerra e Filipe Guerra, notáveis tradutores do russo, os quais com o seu saber e arte, aliados ao génio de Dostoiewski, me têm proporcionado ao longo deste ano alguns dos grandes prazeres literários com que a vida me tem prendado.

Sinceramente, obrigado.

2005-08-23

What the hell, I'm feeling kinda romantic these days

To R.

John and Helen's story

Helen was exasperated, the traffic jam seemed endless. 'At this rate I won't get there on time, at nine o'clock, and he will probably leave,' she thought. 'No, of course he won't.' She was a confident and self-assured young lady and was looking forward to seeing John. It had been a while since she last dated someone and she felt something special about him. But now she was gridlocked near Campo Grande, and for the last ten minutes she hadn't been getting any closer to him.

'Well, it was too good to be true,' John thought. He had spent the last ten minutes stranded inside the tube, in the tunnel somewhere between the Praça de Espanha and São Sebastião stations. He was anxious, he liked Helen. Actually he liked her a lot and didn't want to be late on their first date. 'It took me all this time to ask her out and now this. Jesus, will this thing ever move on,' he thought, feeling like a caged bird and regretting the moment he had decided to take the tube instead of the car. But he knew that Helen was taking hers, and two cars seemed one too many.

'He looked so cute, so genuine in his denim jacket. Good looking too'. Helen remembered the first time she saw him, in the school library. He was having an argument with the clerk about a book he desperately needed and was unable to find. She jumped in, on his behalf. She was like that, impulsive. He gazed at her like she had just saved the day and smiled. 'Maybe it was love at first sight,' Helen thought and smiled to herself as the car in front of her started to move.

'She has the most sensual lips.' John was remembering when he saw Helen for the first time. It was unusual for a girl to step forward and help a complete stranger the way she did. He wanted to kiss her then but he didn't. 'Years and years of civilisation and repressed feelings,' he thought. 'Well today is the day, if I ever get out of this bloody train.' He was now heading towards the Marquês de Pombal tube station. He looked, absent-mindedly, at a girl sitting across from him. She was cute in the same way that Helen was stunning. He looked out of the window, into the blackness, thinking of Helen's beautiful dark eyes.

Now that she was going down Avª da República towards the roundabout, Helen was feeling more relaxed. It was five to nine, and she was counting on being at their rendez-vous point with no more than a ten minute delay, which she found acceptable. 'He was so shy,' she remembered seeing him later that day, at the cafeteria. He smiled at her and quickly went to sit on the other side of the room. He kept looking at her reflection in a mirror, rapidly averting his eyes every time she met his gaze 'If I had not sat at his table the following day we would still be meeting through that mirror.' The Strokes interrupted her thoughts and she pushed up the radio volume and then she noticed that she had not moved for the last five minutes and started to feel nervous and anxious again.

He remembered that day well and the magical words, 'Hi, is this seat taken?' Helen's voice sounded as sweet as sugar to him but he only managed to mumble something in response. As she sat in front of him he warmed to her and enjoyed every minute of the conversation. They began to meet every day at school and he sorely missed her at the weekends. So, almost two weeks later he decided that he could and would go further and asked her out. Now the train was stopping at the Avenida Station. John hurried up the stairs, bought some flowers: 'three red roses for luck in love,' and moved on to the meeting point praying that she would be there. It was already ten past nine.

Helen knew that she felt something for him, the minute she woke up sad on a Sunday because she knew she was not going to see him. Their meetings at school were beginning to be a pleasure and a torture at the same time. He always looked somehow distant. And then one day, out of the blue, he asked her out and here she was now, desperately looking for a parking space. 'God, I should have come in on the tube,' she thought, knowing that it was too late for that. She was growing desperate, it was already nine fifteen and she didn't want John to think of her as thoughtless. Just off the Marquês de Pombal roundabout she saw a blinking light and she hurried to the spot.

John looked at his watch. It was already twenty five past nine. 'She's not coming,' he thought, feeling frustrated but mostly sad. He was angry with himself, his mobile's battery was flat so he could not ring her. 'She's not coming,' he repeated and slowly headed towards the bus stop on the other side of the Avenida.

Finally Helen parked her car two long blocks away from the cinema. She tried to ring John but she couldn't get through to him. She hurried up 'God, all this time waiting for him to ask me out and now this happens.'

The bus was arriving. John looked once more up the road but she wasn't there. He got onto the bus, feeling bitter and promising himself that he would never fall into the love trap again. The bus was just starting to move when he spotted Helen coming hurriedly down the other side. 'Stop the bus,' he cried out loudly. The driver looked at him through the rear-view mirror but ignored him.

Helen stopped in front of the cinema. She was out of breath. 'He is not here,' she thought, looking at her hands in despair. She felt like killing someone. 'He could have waited a little. Maybe he did not come at all'. The thought crossed her mind as she looked at her watch. It was twenty to ten. She felt heartbroken.

Inside the bus John had to think fast. He jumped to the door and opened the emergency slide-door on top. He pushed the safety lever. The bus doors opened and at the same time the driver stepped on the brakes. The bus' sudden halt upset the other passengers but, as John jumped onto the street he was oblivious to the driver's complaints.

Helen was still there. She didn't know what to do. She didn't want to go home, she just wanted him by her side. 'Helen.' She recognised the voice and turned round. He was there, looking at her, smiling. She smiled back and took his outstretched hand.

They kissed.