22 maio, 2012

Inacção

Finalmente entendo o porquê de me agarrar ao sofá, enquanto sigo pela parede as sombras da minha rua.

De agarrar um livro por abrir, e só ler uma página, e pousá-lo naquele monte que o tempo arrumou...
De ler sempre o mesmo livro!

De acordar manhã cedo, e me sentar na cozinha a olhar pela janela, olhar pela janela a ver o tempo, e ligar o computador só para ver o que vi pela janela. 
De querer poupar tempo... 

De me arrastar até ao quarto depois de banhado, e barbeado, e perfumado, sabonete de morango, creme de limão, e vestir a roupa alinhada de véspera, para poupar tempo hoje, porque o de ontem já passou!

De abrir a porta e descer as escadas, enquanto me esforço por lembrar o carro, tantas vezes o perdi, como ao tempo.

De seguir em frente até à curva...
...contracurva, campo grande, 2º andar, café, navegar, escrever, falar, descer, comer, café, subir,  navegar, escrever, falar, descer, contracurva, curva, campo de ourique, 3º andar, navegar, escrever, falar, comer, café, ler,  deitar, sem amar, sonhar.

E porque acordo no dia seguinte a pensar a razão de toda esta rotina, e sentado na mesma cozinha, e olhando pela mesma janela, finalmente entendo que tenho sempre tanto para fazer, mas que é tudo secundário...

14 janeiro, 2005

O MEU SILÊNCIO

Ébrio de erros, perco-me por momentos de sentir-me viver. Fernando Pessoa

Amo o meu silêncio. É aí que vivo, é aí que sobrevivo, que me faço, que progrido. Adoro que mo preencham quando sinto essa necessidade, inteligentemente...ou não. Odeio que mo tentem preencher, forçosamente, quando não o sinto como necessidade.

Sou péssimo a preencher o silêncio dos outros, por isso ser por vezes observado com desconfiança. Neste mundo ocidental que preserva as palavras, as protege e sublima a comunicação acima de tudo, o silêncio é sinal de doença, de maleita, é como estar amarelo de icterícia.

Odeio o artificialismo, odeio chat-rooms, onde a solidão que é o silêncio se vê distraída mas não preenchida. Odeio que o vento assobie na minha chaminé quando tento dormir.

Desespero quando o meu filho me chama a meio da noite, por um copo de água. Mas fico depois languidamente a observá-lo, meio a dormir, preenchendo com a sua imagem o meu silêncio, à luz de uma fraca luz de presença, a qual preenche o seu silêncio, ainda muito igual aos seus medos e incertezas.

No feminino amo o calor e o odor dela, os quais tornam o meu silêncio obsoleto, quando cruza as suas pernas nas minhas e levemente respira de satisfação como um gato muito festejado. Vivo para estes dois parágrafos, para o que se segue, e pouco mais.

Amo os livros. Creio ser este um amor desproporcionado, de parte a parte. São eles que fizeram da minha vida esta epopeia perdida pelos sofás. Mas são eles também que mais profundamente preenchem o meu silêncio e me fazem compreender, entender, reconhecer, amar e odiar a dimensão humana onde inevitavelmente me perco.

Amo os livros e o meu silêncio...

13 janeiro, 2005

A angústia do primeiro «post»

Pergunto-me como ultrapassar a angústia do primeiro «post»...

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Ok, ultrapassada.

(Não sei como nem porquê, veio-me à memória uma tarde, largos anos atrás, em que enfrentei uma outra primeira vez com a mesma decisão, empenho (e rapidez)).