2005-08-31

Dostoiewski (II)

O personagem principal de 'Crime e Castigo', o desafortunado e delirante Raskolnikóv, é um assassino. Mata em nome do seu ideal, o de dar a si próprio os meios de mudar o mundo para melhor. Acredita ser um dos escolhidos.

Por aqui ecoa uma ideia, soberanamente explanada pela pena do Dostoiewski. É uma ideia fria, crua como o gume de uma faca, cruel. Segundo ela, existem dois tipos de homem, os normais, inseridos na sociedade e que devem ser julgados pelas leis desta, e os escolhidos, os eleitos, sujeitos supra-sociais, os quais obedecem apenas ao dever para com os outros e não às suas leis. Na 'Genealogia da Moral', Nietszche movimenta-se por caminhos semelhantes, o super-homem cria as suas próprias leis morais.

Esta ideia apela à relativização do acto, mesmo o mais abominável, mesmo o mais monstruoso. Quando consumado por um dos escolhidos, ser superior, providencial, fecundado pelo conhecimento do bem geral, esse acto só por ele pode ser julgado. Dostoiewski escreve muito próximo de Napoleão, provavelmente tinha-o em mente. É claro que Hitler no seu delírio ter-se-á baseado num princípio semelhante quando decretou a solução final para o caso judeu.

Não estou a apelidar Dostoiewski de nazi, seria ridículo, o autor e a obra são distintos, a obra pertence-nos quando a lemos e esta é apenas uma migalha que retirei do amargo bolo de mel que é 'Crime e Castigo'.

A História está cheia de escolhidos. Do Khan a Salazar, de Estaline a Mao, milhões foram sacrificados em nome de um suposto bem social comum. Nas democracias actuais os escolhidos pululam num pântano de populismo, incólumes aos mecanismos de defesa das mesmas. Paradigmático é o caso de Bush o qual se arvorou saber do que carecem os herdeiros da antiga Babilónia.

Dostoiewski escreve do seu tempo mas a sua escrita é intemporal na sua humanidade, tal como deve ser.

5 Comments:

Blogger maria_arvore said...

Os escolhidos providenciais só têm um problema: ninguém lhes passou procuração para o serem.

E como bem frisaste, os extremos tocam-se e há escolhidos em todos os cambiantes do espectro político.

Se todos tivéssemos caído num caldeirão de soro da verdade quando erámos pequeninos, deixava de haver escolhidos. :)

3:23 da tarde  
Blogger guardador_de_rebanhos said...

Talvez... mas seria tão triste a nossa vida se convivessemos apenas com a verdade...

3:34 da tarde  
Blogger maria_arvore said...

Falar verdade não implica a perda da imaginação.

3:40 da tarde  
Blogger guardador_de_rebanhos said...

Tens razão... ou talvez não. Se o bom existir apenas na imaginação e não na realidade e se esta última for apenas o nosso pior pesadelo, se nos dessem a escolher quantos de nós não escolheriamos o sonho, como no Matrix.

3:52 da tarde  
Blogger maria_arvore said...

Acredito que a maioria de nós escolheria o sonho. :))))

Mas julgo que se resolve se tivermos a lucidez de ver a realidade sem abdicar de termos sonhos. Como no anúncio da Volkswagen, todos temos de ter alguma coisa na vida.

2:49 da tarde  

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