2005-01-28

AS SESSENTA VIRGENS

Deus estava a fazer a barba. Desde há séculos (literalmente) que todas as manhãs acordava dorido e angustiado e chateado com a vida e ainda por cima despeitado com o Seu mau hálito. Frequentemente sofria de insónias.

Nunca Lhe tinha passado pela cabeça que tudo acabaria assim quando, alguns milénios atrás, tinha aceite aquela missão na Agência Intergaláctica de Amas para Planetas.
É certo que Lhe tinham dito que a Terra era um planeta "classe zero" e que Ele teria que contemporizar com todos os credos e crenças dos seres que aí habitavam. Na altura tinha pensado na missão como um desafio. Hoje em dia, a pior coisa era ter que fingir que não existia quando se cruzava com algum ateu pretensioso, lá em baixo no Céu.

"Toque, toque" - um querubim batia à janela.

- O que é? Não pode esperar? - ralhou Deus enquanto abria uma fresta.

- Deus, o mártir muçulmano que chegou ontem está a ter problemas com as virgens - informou o querubim.

"Os muçulmanos, sempre os muçulmanos" - pensou Deus para com os seus botões. "Esses gajos mais a parvoíce das sessenta virgens". Como é que era suposto esperar que Ele arranjasse sessenta para cada mártir se achar uma já era difícil. Por Ele podiam ir todos para o Inferno, se ao menos o Inferno existisse. Século após século, Ele tinha-se preocupado, e preocupado, e perdido uma eternidade de noites (literalmente) a pensar como havia de contornar a escassez de virgens. Hoje em dia dava dez a cada mártir quando chegavam e mais uma de vez em quando até que eles perdessem a conta.

- Vá lá Deus, o que é que eu faço - insistiu o querubim.

"Essa era outra. Ele tinha sempre que saber o que fazer. E toda a gente O chamava Deus quando o Seu nome verdadeiro era Henrique."

- Ok, Ok, Eu vou ver se ainda tenho algum - respondeu Deus ao querubim.

Deus continuou a fazer a barba, enquanto o querubim se afastava rapidamente levando consigo o milagroso comprimido azul, Viagra, para dar ao mártir.

Harmonia e Honra

Algures, perdido no tempo da minha adolescência, pausando entre Kafka e quejandos, recordo-me deliciosamente de ter lido Xogun de James Clavell, tradução portuguesa claro. Para este conseguido romance, o cunho de best-seller e a adaptação televisiva estavam no adro.

O que livro nos relata são as aventuras e desventuras do (pseudo) primeiro europeu que viveu no Japão, por alturas do Xogunato, imperialismo clássico, onde a defesa da honra e o respeito pela harmonia do outro se equilibravam. Perguntam-me porquê este romance, um best-seller, tão distante do cânone. De facto a sua relevância para esta minha história é diminuta. Dele apenas pretendo um episódio que me ficou na memória, o qual passo a relatar:

"O senhor XY1, inglês, (não me recordo do nome das personagens), é hospede de uma família japonesa, numa casa de paredes de papel, como manda a tradição anti-sísmica das ilhas em causa. A meio da noite apercebe-se que o senhor da casa, chamemos-lhe senhor XY2, samurai dos mais temidos do Japão, perito em golpes finos de espada, se entretém a espancar a esposa, fina flor oriental, a senhora XX. XY1 que não sabia o que era tomar banho mas que era empenhado na arte do cavalheirismo, irrompe pela porta ou pela parede (afinal era de papel), apanha XY2 de surpresa e lança-o para fora de casa, ralhando com ele em inglês, o que para o caso podia ser chinês. A tensão aumenta, XY2 está no terreiro com a mão no punho da sua espada, XY1 está nas escadas a aguardar o golpe que se afigura mortal e a pensar que os portugueses tinham razão quando diziam que "entre marido e mulher ninguém mete a colher" e, por último, XX está de prantos. Ao fim de uns minutos XY2 avança, espada na mão, XY1 treme mas não arreda pé e XX continua de prantos. Final da história, XY2 lança-se aos pés de XY1, que por acaso tinham sido lavados por uma dilecta moça XX2, a qual não é chamada para esta história, e, oferecendo-lhe a espada, oferece-lhe também a vida, porque mais importante que a sua honra (o que ele não diz, mas que se conclui do episódio) é o ter perturbado a harmonia do seu hóspede."

A reacção do japonês é totalmente inesperada para o inglês, o qual não se sentiu minimamente incomodado com o barulho provocado, mas sim com o tipo de barulho. O seu silêncio era algo a que não dava valor e como tal era para si completamente contra-natura pensar que este pudesse valer a vida de um outro homem.

O livro de James Clavell, de uma forma incipiente mas inteligente, conseguiu alertar-me para esta questão básica das diferenças entre o ser oriental e o ser ocidental.

Quantos de nós se preocupam em preservar, em honrar, a harmonia dos outros? Quantos de nós reagiríamos como o senhor de guerra japonês, habituado a traçar com o fio da espada inúmeros conterrâneos, mas envergonhado por ter perturbado o sono de um bárbaro. Os tempos eram outros, dir-me-ão, provavelmente poucos japoneses se comportariam assim nos dias de hoje. E afinal trata-se apenas de um romance.

É claro que concedo esses argumentos, mas o que está aqui em causa é mais que uma banalidade, que um fait-divers, que uma diferença mínima entre duas civilizações. O oriental, movido pelas suas estranhas religiões e credos, aceita-se no silêncio e como tal é aí que aceita, e se aceita nos outros. Para o ocidental o silêncio é dúbio, é sinal de secretismo, indiferença, e como tal deve ser combatido. E se a palavra cria, o silêncio não cria, o silêncio apenas preenche a maior criação da história do mundo, o Homem.

2005-01-17

"MIDIA" CLASSE

"Pondé kugajandará. Secalha foi outa vez pós copos kujorge. Desgrassalha vidinha, põesse os dois nos copos e eu páki a dar ao dedo a lavarlhas truces. Tou fartinha desta treta! E comó gajo chagou ontem! Nãssão exemplos pá criança. Sim kumiúdo tamem anda parvo, sará kugajo nã pracebe?"

"Tou kázachegar. Vamozaver sarrumucarro. Desde kacabaram as férias kisto tá uma bosta kupessoal todo de volta. Nãconsigo arranjar lugar, kamerda! Ela devatár lixada comigo! Mas tamem ké keide fazer? Um gajo dá cabo do coiro a bulir e tamem tem kaproveitar um coche. Bem, ontem té o puto tavólhar pramim de lado..."

"O sacana nunca mais chega. Tou fartinha farta! A cena kele fez noutro dia pra nãir a casa da minha mãe. Como sséla lha devesse alguma coisa. Sei bem ku kugajo caria erarir pró café beber a ver o treta da bola kuzoutros igualinhozaele! Mazeu preciso de companhia. O dia todo páki fechada, sozinha, tenho ka falar kalguém. A minha mãe é kame pracebe. Ela té gostava muitadele. Dáme graça agora kamalembro disso. Tamem ele néra o bezanas kégora..."

"Chiça tékenfim! A gaja nãvai acreditar ke nãtive a beber. Também logoje kecariachegar cedo é katinha kaficar empencado na merda da segunda circular. E depoizesta treta danão conseguir lugar. Sólhar dela. E da mãe. A velha té kera fixe, mazagora parece uma bruxa. Tãcedo nãvolto a pôr lá os cotos! Tamem a filha erumabaril e gora sóssabe mandar. E mandar. É massa e maizuma e maizuma e massa. Um gajo tamem pracisa de descanso né. Nunca mais tenho descanso..."

"Ólhindontem. O gajo só presta pa ressonar. Nãprecebe kuma mulher tem necessidades. E nãssou só eu kudigo kas revistas tamem dizem . É verdade sim senhora! E a kuadrilhona do primeiro direito diz ké todazas noites. Custácrer culingrinhas do gajo dela. Mais uma razão pró meu katé encorpado. Tamem tá sempre kus copos. Sáu menos fossum cadinho romântico, comákele, o Frota..."

"Kando abrir a porta começa lógamandar vir. Já sei koméké! É sempre a mesma merda! O ké keide fazer, foi ela kema saiu na rifa. E té gosto dela."

"Té gosto dele. Kando nãbebe é tão krido, como nuzanos que madeukilo vermelho katé ficou tôood maluko depois deu a pôr. Olhó gájameter a chave à porta. Olhenfiou à primeira, né costume. Deixa-mastar aqui ketinha como se nãdesse por ele.

- Olá filha, correu-ta bem o dia?
- Assim assim e o teu, filho?
- Tamem! Ké o jantar?
- Pescadinhas kurrabo na boca!
- Tá bem, vou só pôr as chinelas, filha.
- Póssapôr no prato?
- Podes keu venho já. Donde tá o miúdo?
- Tá no karto, chama-o.
- Tá bem... olha catá dar bola.
- Vai ver pá sala keu tou o ver a novela, já talevo a comida.
- Tá bem, nãdemores katou cheio dafome!
- Cala-te mazé kaquero ouvir a novela.

" Bem, ao menos parece kanão vem bêbado, olha kagiro, será kestes vão ficar os dois juntos? Esta novela é gira!..."

"Bem, pelo menos parece kajá sesqueceu dontem, olha golo. É penalty, esta merda é penalty."



Escrita e ideologia

O séc XX registou romancistas políticos importantes. Talvez as necessidades da época assim o ditassem. Na América John Steimbeck descreveu a agonia da dimensão humana às mãos do capitalismo. É certo que Steimbeck acreditava nas dicotomias utópicas, nos idealismos, "socialismo", "comunismo" e em contraponto "capitalismo". Mas, pergunto eu, o que nos dão os escritores hoje em dia, em troca das utopias?

Serei eu que ando absorto, adormecido, contente dentro dos meus -inhos? Talvez o seja. Mas será que ainda existem escritores políticos, defensores de ideologias, propulsores das mesmas, com capacidade de motivar multidões e ultrapassar a barreira da política que tão logo os procura absorver?

Não o creio, em todo o mundo serão poucos e assumidamente irrelevantes. Quando um autor disposto a acordar, chocar e quebrar os nossos preconceitos através da sua escrita (falo de Rui Nunes) afirma que tem os leitores que quer, o essencial da sua mensagem é a sua despreocupação em passar qualquer mensagem que seja aos não convertidos. Ora, sempre ouvi dizer que é fácil pregar aos convertidos.

Que dizer dos repórteres encartados que acompanham um exército de invasão? Não constituirão eles uma ameaça ao nosso equilíbrio? E poderemos fugir deles? Hoje em dia lidamos sobretudo com informação ao segundo. Pensamos ter o conhecimento, a sabedoria na sua totalidade, mas a morfologia diz-nos que a totalidade deu origem ao totalitarismo. Não é na totalidade que reside a liberdade, mas sim no quebra do prato da informação em mil pedaços, impossíveis de colar, de reparar, de conciliar.

E nós, pobres leitores, perdidos num meio em que finalmente sabemos da inexistência da totalidade da verdade, carecemos de guias, de pessoas credenciadas, escritores diplomados pela vida que saibam preencher as nossa questões, as nossas indecisões.

Mas numa realidade vivida a plena velocidade, irrespirável para asmáticos, a complexidade atinge-nos em cheio e impede-nos de olhar em frente e reconhecer o certo do errado, se é que tal conceitos existem, ou deviam existir, (não deveriam até ser proscritos?).

Mas será disso que precisamos, de alguém da escrita que nos faça ver o que é elementar no meio de todo o ruído com que displecentemente nos deixamos preencher? Talvez o seja. No entanto o que sinto é um galopar dos acontecimentos à minha frente e julgo ser esse mesmo galopar que impede um escritor de os acompanhar. Acredito que o seja, sei que no mundo se vive a uma velocidade sem rival em tempos idos e que o fundo do poço, negro, está sempre apenas a centímetros de distância.

2005-01-14

O MEU SILÊNCIO

Ébrio de erros, perco-me por momentos de sentir-me viver. Fernando Pessoa

Amo o meu silêncio. É aí que vivo, é aí que sobrevivo, que me faço, que progrido. Adoro que mo preencham quando sinto essa necessidade, inteligentemente...ou não. Odeio que mo tentem preencher, forçosamente, quando não o sinto como necessidade.

Sou péssimo a preencher o silêncio dos outros, por isso ser por vezes observado com desconfiança. Neste mundo ocidental que preserva as palavras, as protege e sublima a comunicação acima de tudo, o silêncio é sinal de doença, de maleita, é como estar amarelo de icterícia.

Odeio o artificialismo, odeio chat-rooms, onde a solidão que é o silêncio se vê distraída mas não preenchida. Odeio que o vento assobie na minha chaminé quando tento dormir.

Desespero quando o meu filho me chama a meio da noite, por um copo de água. Mas fico depois languidamente a observá-lo, meio a dormir, preenchendo com a sua imagem o meu silêncio, à luz de uma fraca luz de presença, a qual preenche o seu silêncio, ainda muito igual aos seus medos e incertezas.

No feminino amo o calor e o odor dela, os quais tornam o meu silêncio obsoleto, quando cruza as suas pernas nas minhas e levemente respira de satisfação como um gato muito festejado. Vivo para estes dois parágrafos, para o que se segue, e pouco mais.

Amo os livros. Creio ser este um amor desproporcionado, de parte a parte. São eles que fizeram da minha vida esta epopeia perdida pelos sofás. Mas são eles também que mais profundamente preenchem o meu silêncio e me fazem compreender, entender, reconhecer, amar e odiar a dimensão humana onde inevitavelmente me perco.

Amo os livros e o meu silêncio...

2005-01-13

A angústia do primeiro «post»

Pergunto-me como ultrapassar a angústia do primeiro «post»...

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Ok, ultrapassada.

(Não sei como nem porquê, veio-me à memória uma tarde, largos anos atrás, em que enfrentei uma outra primeira vez com a mesma decisão, empenho (e rapidez)).